Minha poesia preferida desde que me conheço por gente.

DESENHO


Fui morena e magrinha como qualquer polinésia
E comia mamão e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
E as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam.

Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
Onde as rolas à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
Entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
E os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
Que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
Pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosas!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
E os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
Moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
Canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
E palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
Por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! – aprendi com as primaveras
A deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

Cecília Meireles – Mar Absoluto e outros poemas (1945)