Meu pai

“Meu pai, esse herói de olhar tão doce...”

Este é o primeiro verso de uma poesia do meu livro de Francês da 3ª série ginasial e ficou desde sempre ligado às lembranças que tenho de meu pai.
Minha mãe era católica apostólica romana e todos os seis filhos fizeram a primeira comunhão e iam à missa todos os domingos. Os caçulas – eu, minha irmã gêmea e meu irmão menor – íamos também nas rezas, quase todas as noites, juntamente com várias crianças do nosso bairro. Maior era o mês de Maria, o mês das flores, e, à tarde, as crianças saíam pedindo flores nas casas que tinham canteiros, para formar um buquê e levar à noite na igreja.
Junho era o mês do coração de Jesus. Uma menina vestida de anjo vinha com um coração de cetim vermelho e a gente colocava um pedido dentro do coração. Eu me lembro de dobrar o bilhete muitas vezes, e me pergunto agora o que teria eu pedido com tanto ardor naquele tempo.

Já o meu pai, que era dono de uma farmácia, chamada Pharmácia Central, que ficava na frente da Igreja Matriz, se dizia simpatizante de comunista, expressão muito usada por aquela época, década de 1950, e, em alto e bom som, dizia que era ateu, graças a Deus. Vivia sempre preocupado com os moradores de rua, que naquela época dava para contar nos dedos, e com o destino de todos os pobres desde mundo. De sua farmácia nunca saiu ninguém sem o remédio desejado, mesmo que não tivesse o dinheiro suficiente para pagá-lo.
Já na minha adolescência, eu me lembro muito bem que ele era amigo íntimo do cônego Rossi. A Matriz estava em reforma e, toda tarde, o cônego passava na farmácia, e ele e meu pai iam inspecionar as obras.
O cônego era de estatura mediana, um pouco gordo e usava batina, e meu pai, muito alto e magro, vestia um avental branco que chegava até o meio das pernas. Me lembro de vê-los subindo pela estreita escada que levava ao campanário, onde estavam os sinos, e ficava torcendo para que os tocassem, mas isso nunca aconteceu.
A igreja ia ficando muito bonita, cheia de vitrais, e meu pai conseguiu vários deles, através de listas que fazia com contribuições de seus amigos, alguns deles muito ricos.
Quando, muitos anos mais tarde, ele morreu numa cama de hospital, estavam ao seu lado, sua irmã, minha mãe, todos os seus filhos e o cônego Rossi, que obviamente queria lhe dar a extrema-unção.
Meu pai se despediu de sua irmã, de minha mãe e dos filhos, um a um, ao mesmo tempo em que ia reconhecendo o nome de várias pessoas de sua família, que há haviam morrido. Era como se eles estivessem vindo buscá-lo e, a cada um que aparecia, meu pai saudava com surpresa e até com alegria.

O cônego Rossi, numa atitude de respeito por sua conhecida condição de ateu, perguntou então: - Moacyr, você deseja que eu lhe dê a extrema-unção?
Meu pai abriu os olhos pela última vez, disse que sim com o olhar e a cabeça e nos deixou: “Foi brincar nos campos do Senhor”.
Essa amizade entre os dois foi o mais belo exemplo de tolerância e respeito que vi em minha vida.
Meu pai foi velado em nossa casa e enterrado no dia seguinte. A casa ficou muito pequena para todos os que vieram se despedir dele.
Na época, minha irmã mais velha era professora de Inglês no tradicional colégio de freiras, chamado Colégio São José. Era muito querida pelos alunos e, pela janela da minha casa, eu pude ver a primeira classe chegando. Duas a duas, uniformizadas, as alunas, acompanhadas por três freiras, formavam uma fila e vinham andando pela calçada para o enterro de meu pai.
Vieram todas as classes e a presença da juventude em nossa casa, embora calada e triste, era uma veemente evidência de que a vida continua e a tristeza pela perda não se transformava em desespero, mas se travestia em mensagem de esperança, continuidade, solidariedade e amor.

Sylvia Manzano

Conto retirado da Revista Família Cristã – Agosto de 2005 – Ano 71 – N° 836

 

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