“RELEMBRANÇAS DA INFÂNCIA”

INTRODUÇÃO

Nós escrevemos com as palavras do nosso repertório interior, nosso vocabulário pessoal. A aproximação com essas palavras, o exercício de escrevê-las e comunicar o resultado ao grupo será o ponto de partida do nosso processo de trabalho.

A partir da leitura de trecho da poesia INFÂNCIA de Carlos Drummond de Andrade, exercícios de escrita e desenho, cada participante irá sendo aquecido aos poucos, estimulado a se expressar e comunicar sua expressão escrita.

A criação de um espaço favorável, agradável e confiável é fundamental para que essa interação aconteça.

OBJETIVOS

* lembrar-se dos livros, músicas e filmes da infância

* aprender a ouvir o que o outro tem a dizer

* ampliar o repertório interior de palavras

* sensibilizar para o texto literário

* aumentar a auto-estima

* apropriar-se da cultura existente e consagrada

* criar textos originais

* expressar-se com objetividade, clareza e beleza.

DURAÇÃO

Uma oficina de duas horas, com pequeno intervalo para cafezinho e “guloseimas”.

NÚMERO DE PARTICIPANTES

A combinar.

O local onde será realizada a oficina, deverá ter condições de colocar as pessoas em círculo em volta de uma ou várias mesas, onde confortavelmente possam escrever e desenhar.

MATERIAL

Papel sulfite colorido e branco, caneta hidrocor, giz de cera e cópias xérox das aulas.

DESENVOLVIMENTO

RISQUE E RABISQUE - Inicio a oficina colocando uma folha de papel sulfite e giz de cera para cada participante e dizendo que risquem o papel, procurando sentir até que parte do corpo se mobiliza nesse exercício, procurando sentir o deslizar do giz de cera no papel, deslizando com suavidade, se surgir alguma lembrança de coisa agradácio, procurando sentir o deslizar do giz de cera no papel, deslizando com suavidade, se surgir alguma lembrança de coisa agradvel e com raiva se surgir a lembrança de algo desagradável.

Virando a folha do papel, cada participante colocará o seu nome e depois todos lerão o próprio nome.

Nesse momento evito pedir que falem mais alto, porque sei que cada um já deu o seu mais alto no momento de falar e então, faço “espelho”, eu mesma vou repetindo o nome de cada um bem alto.

A seguir eles recebem uma folha de sulfite xerocada, com o seguinte exercício: escrever todas as palavras que vieram às suas cabeças, sem censura, não será lido, esse será o segredo secreto de cada um deles.

Depois cada um escolhe três das palavras que escreveu e haverá uma leitura das palavras escolhidas.

Sempre gosto de dizer que a palavra não tem dono e se alguém gostar de alguma palavra do colega, pode levar para casa e começar a usar imediatamente.

Também digo, que para tudo que eu pedir que façam, quem não se sentir preparado para fazê-lo naquele momento, pode dizer : “eu passo”.

Quem sabe na próxima rodada, estará mais seguro para poder também entrar na roda.

A seguir eles recebem outra folha com o seguinte trecho da poesia INFÂNCIA de Carlos Drummond de Andrade:

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé.

Comprida história que não acaba mais.

(...)

Lá longe meu pai campeava

No mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


Eu leio a poesia e depois pergunto quem quer ler.

Geralmente muitos querem e todos podem fazê-lo.

A seguir conto os versos da poesia e sugiro que cada um leia um verso.

Cada dois leiam um verso e assim por diante, fazendo vários tipos de jogral.

A seguir cada um escolhe o seu verso predileto, risca em cima com giz de cera e lê o seu escolhido.

Depois cada um escolhe sua palavra preferida, risca com giz de cera e lê sua palavra.

Aí eu falo que o Robinson Crusoé parecia ser um ídolo do Carlos Drummond de Andrade, quando ele era criança e ele teve a felicidade de poder reconhecer na maturidade, que sua vida tinha sido mais bonita que a do seu ídolo ou herói.

A seguir vem a parte das relembranças de cada um: a primeira professora, o primeiro livro que leu, a cartilha onde aprendeu a ler, as musiquinhas que cantava, os filmes que assistia na televisão ou no cinema, as histórias que ouvia, o folclore de sua cidade natal, etc.

Depois eles vão substituir os dois últimos versos da poesia:

“E eu não sabia que minha história

Era mais bonita que a de Robinson Crosoé.”

No lugar de Robinson Crusoé, eles vão colocar o nome de um herói da infância deles, da ficção ou da vida real.

Nesse ponto eu falo que substituo assim:

“E eu não sabia que minha história

Era mais bonita que a da Emília.”

- Estou me referindo à Emília, a boneca de pano, criação do Monteiro Lobato –

A seguir, eles vão virar o papel e escrever bem rapidamente, sem censura, tudo que estiverem pensando ou sentindo.

Este texto não será lido, continua sendo o segredo secreto de cada um.

Neste ponto eu leio um texto que escrevi (em anexo) chamado “EU TAMBÉM JÁ FUI MENINA”, previamente xerocado e distribuído para cada participante.

Então é solicitado que cada um escreva o seu texto final, agora com mais calma e que será lido para todos, marcando então, a passagem do individual para o social, já que os outros não eram lidos e este agora será.

Eu sugiro, que seguindo de certa forma, o meu exemplo, que contei fatos acontecidos em minha infância no texto a eles apresentado, contem também relevantes de suas infâncias, se quizerem ou então, escrevam sobre qualquer outro assunto que lhes vier à cabeça.

Continua valendo a combinação: quem não se sentir preparado para ler o texto escrito é só dizer: “eu passo”.

EU TAMBÉM JÁ FUI MENINA...


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SYLVIA MANZANO

Setembro/99

Eu vou contar para vocês, como é que eu entrei na escola.

Naquele tempo, não existia pré-escola como hoje e a gente tinha que esperar fazer 7 anos para entrar no 1° ano e começar a aprender a ler.

Eu era gêmea naquela época.

Meu nome é Maria Silvia e o nome dela era Maria Cecília.

A minha irmã mais velha, que se chama Maria Dulce, dava aula no 1° ano, numa escola particular, que ficava bem pertinho da nossa casa.

Pois bem, “as gêmeas”, como éramos chamadas tinham apenas 5 anos de idade. Íamos fazer 6 anos no mês de abril, mas estávamos mortas de vontade de entrar na escola.

Assim sendo, nós duas íamos todos os dias para a escola, ficávamos sentadas na entrada, rabiscando o chão com umas pedras coloridas que existiam naquele tempo.

O diretor entrava e saía da escola e vendo “as gêmeas” sempre ali no mesmo lugar, um dia chamou minha irmã e disse pra colocar a gente na classe como “ouvintes”.

Para nós foi a glória e passamos a freqüentar a escola.

Naquele tempo existiam umas carteiras duplas onde cabiam dois alunos e a minha irmã, a professora, costumava colocar um menino e uma menina sentando na mesma carteira, porque assim, dizia ela, a disciplina estaria assegurada.

Na verdade, a disciplina desde sempre estava assegurada, ela era uma excelente professora e a escola era “risonha e franca”.

Eu não perdia aula por nada desse mundo.

Bom, o meu colega de carteira era o Errol Ranciaro e nós nos dávamos muito bem.

Eu me lembro que tinha um caderno brochura com 50 páginas, que tinha o “Tom Mix” na capa, que era um herói do far-west, que usava um laço e com ele, laçava os “bandidos”.

Eu e o Errol tínhamos uma brincadeira, que era uma espécie de competição e que consistia no seguinte: um escrevia o nome dou do outro no próprio caderno o maior número de vezes possível.

Eu me lembro de páginas e páginas inteiras onde eu escrevia Errol Ranciaro, Errol Ranciaro, Errol Ranciaro...

Já ele, levava uma grande desvantagem, porque meu nome completo é Maria Silvia Mattos Silveira.

Nós morávamos numa casa que ficava a quatro quarteirões da praça principal e todas as tardes íamos tomar sorvete numa sorveteria que ficava na esquina da praça.

A relação que existe entre irmãos gêmeos é tão íntima, tão profunda e tão agradável, que só mesmo quem é gêmeo pra entender do que é que eu estou falando.

Nossa vida era completa, a felicidade consistia nessas pequenas coisas diárias: ir para a escola de manhã e à tarde pegar aquela rua reta e arborizada que nos levava até a sorveteria e ao sorvete de palito de chocolate.

Numa dessas tardes, eu e a Cecília, encontramos no caminho o Errol Ranciaro e a irmã dele, a Elide Ranciaro.

Ela logo foi fazendo a pergunta inevitável, a pergunta que todos faziam quando nos encontravam:

- De qual das duas você gosta mais?

O que vocês pensam que eu achava que ele ia responder?

De mim, é claro.

Afinal, nós sentávamos na mesma carteira, éramos super, híper bons amigos, eu já nutria uma paixão secreta por ele e é claro que não tinha nenhum dúvida da resposta dele.

Portanto, vocês não imaginam com que cara eu fiquei, quando ele respondeu:

- Das duas.

Das duas? Mas como? Das duas????? Igualzinho??????? E a nossa amizade? E a nosssa cumplicidade? E aquelas páginas e páginas de Errol Ranciaro que escrevi no meu caderno que tinha o Tom Mix na capa?

Foi a minha primeira desilusão amorosa, pior que isso, foi a primeira injustiça que sofri e pior que tudo isso, a minha irmã gêmea, a minha querida irmã gêmea, de repente se transformou na minha rival.

Para que o conflito fosse instalado, foi um passo.

Vocês sabem o que é um conflito?

Um conflito é quando a gente fica dividido, uma parte vai para um lado, a outra parte vai para o lado oposto.

Você não sabe mais o que quer, você nem sabe mais quem você é.

Como eu podia odiar a irmã que eu mais amava?

Nosso relacionamento era perfeito, nossa vida tão tranqüila nossa felicidade tão completa...

E, no entanto, nuvens negras começaram a desenhar figuras sinistras naquele céu tão azul...

Os carneirinhos brancos de nuvens até então existentes, se transformaram em dragões soltando fogo pelas ventas!!!

É claro que não percebi isso tudo naquele instante.

Naquele instante eu não me lembro o que foi que senti, mas se não tivesse sido tão terrível, eu não me lembraria disso até agora.

Se não tivesse percebido aos seis anos de idade que a desilusão existe, que a injustiça existe e que o conflite existe e dói pra valer, talvez eu não tivesse me tornado uma escritora.

Acho que foi por isso que virei escritora: porque tenho memória e gosto de dizer o que penso e o que sinto em folhas e folhas de papel, mesmo que depois eu jogue tudo fora.

Porque aprendi que as tristezas e as alegrias devem mesmo ser levadas à sério.

Porque aprendi que a gente está aqui neste mundo pra aprender e sobretudo, pra aprender a ser feliz.

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