Ficção: quem acredita nela?

O livro “O imaginário no poder” de Jacqueline Held, foi lançado em 1977 em Paris e em 1998 no Brasil.

No texto-montagem de apresentação “Em homenagem ao imaginário”, ela nos diz que “Literatura didática e literatura moralizadora manifestam certa desconfiança para com a ficção. Elas lhe recusam o direito de existir enquanto tal. Por que os adultos impõem à ficção transmitir um ensinamento? A ficção se assemelha a um brinquedo. A ficção responde a uma necessidade muito profunda da criança: não se contentar com sua própria vida. A ficção não deveria abrir todas as espécies de portas, permitir à criança imaginar outras possibilidades de ser para que possa, finalmente escolher-se?”

Quinze anos depois, após o término da leitura da produção infantil e juvenil de 1993 nos perguntamos atônitos e perplexos: porque os adultos continuam impondo à ficção a função de transmitir ensinamento?

Por que os educadores continuam não acreditando na linguagem simbólica e na capacidade de elaboração e de escolha das crianças e dos jovens?

Por que escritores, editores, e agentes culturais ainda se utilizam da linguagem ficcional e simbólica, apenas como pretexto para o sermãozinho do final?

Por que impedir que as crianças e os jovens participem da aventura mais real e gratificante que existe, que é a apropriação do próprio imaginário?

Na “Apresentação da Edição Brasileira”, Edmir Perrotti cita Jacqueline Held, quando taxativa diz logo nas primeiras páginas do livro: “Digamos, desde já e claramente: o imaginário de que nos ocuparemos não é esse pseudo-imaginário com a função de esquecimento, de exorcismo e de diversão, que desvia a criança dos verdadeiros problemas do mundo de hoje e de amanhã.”

E conclui ele mesmo: “O imaginário não é alienação. Antes, é meio que possibilita a revelação do real: é método, visando a distinção de Fisher, e não atitude.”

Por não desejar que essa perplexidade após a elaboração de parte das resenhas constantes nesta Bibliografia permaneça confinada é que foram escritas estas palavras, estas indagações, estas reflexões e, sobretudo, este medo de que tudo permaneça como está.

Por não desejar que este artigo caia num buraco fundo sem solução, queremos aqui recordar o buraco onde caiu a Alice, “do país das maravilhas”, ou o sítio do Picapau Amarelo ou a floresta onde vivem Winnie Puff, Christopher Robin, Leitão, Coelho, Canga, Ru e Oió.

Queremos recordar Andersen, Perrault, os irmãos Grimm e tantos e tantos outros, que acreditam na ficção, sim.

Que acreditam na felicidade, sim.

Não, por suposto, como coisa dada e acabada, mas como coisa encantada, embora firmemente enraizada no chão do cotidiano.

Que acreditam na particularidade, na especificidade e na singularidade, como forma de revelar o humano comum a cada um de nós.

A nós, leitores, cabe estar atentos e fortes nessa função sempre prioritária de separar o joio do trigo, o que talvez nem seja tão difícil assim...

Digamos que toda vez que um livro começa a dar em você, leitor, a sensação de que a vida é assim mesmo, que não adianta lutar ou que, pelo contrário, que tudo é mesmo fácil demais, sugerimos que desista desta leitura.

Ou então, quando um livro dá a você, leitor, a sensação de acolher todos os seus mais recônditos sentimentos e suas mais vis e sublimes emoções, não tenha dúvida: vá morar nele. Habite seus espaços, escute os seus silêncios e respire o seu ar renovador.

E depois, com olhos brilhantes e humildes, há que se perceber que a vida nunca é assim mesmo.

A vida, como também o livro, é sempre algo para se descobrir, para se encantar e para se transformar no espaço e no tempo de cada dia.

Na oportunidade, queremos também recordar que esta Bibliografia é dedicada aos pais, professores, bibliotecários e mediadores de leitura em geral, a quem solicitamos nos escrevam contando de suas dúvidas, sugestões, descobertas e encantamentos.

Sylvia Manzano

Texto de abertura da Bibliografia Brasileira de Literatura Infanto-juvenil
V4, 1993, publicada pela Secretaria Municipal de Cultura .

 

Carta da Marilena Chauí