Meu irmão e Nossa Senhora

O Luís que eu conheci não é o mesmo que todos conheceram. Ele era três anos mais novo que eu, então eu o conheci de perto, mas da mesma altura, a relação era horizontal. Na infância (e ainda mais na infância daquele tempo) a relação não era burocrática, era uma coisa junta, cotidiana, dia a dia. Era de comer juntos, na mesma hora, brincar juntos, na mesma hora, de ir à escola juntos, na mesma hora, de dormir juntos, na mesma hora. Era de ler os livros juntos, na mesma hora. Era de ir à igreja juntos, na mesma hora. Eu, a Cecília –minha irmã gêmea – e ele éramos igrejeiros que só nós. Maio era o mês das flores e todo mundo ia levar flores para Nossa Senhora. As crianças, depois da volta da escola, passavam a tarde pedindo flores aos vizinhos para levar o buquê mais bonito de todos para a santa. O padre pegava as flores que passávamos o dia todo coletando com todo carinho e jogava pra trás, assim, com a mão direita, sem nem olhar pra ver onde elas iam cair. Acabava formando um monte bem grande de flores no altar da igreja. E, no dia seguinte, as carolas, como eram chamadas as mulheres que estavam sempre na igreja na igreja, iam lá para poder arrumar as flores, talvez dispô-las em vãos pelo altar ou pelo corredor (tão grande e tão comprido). Os adultos não percebiam, é claro, como nós, as crianças, ficávamos tristes de ver o modo como o padre jogava as flores para trás. No dia seguinte, porém, lá estávamos nós de novo pedindo flor pra vizinhança, fazendo novo buquê e levando com todo amor para Nossa Senhora. O mês de maio antigamente era sempre muito frio, muito frio mesmo, mas toda noite a gente se agasalhava e ia pra reza com inúmeras crianças. Eu me lembro do começo da música: “Neste mês de alegria Tão lindo mês das flores...”. Era impressionante como ninguém desistia, ninguém desanimava, ninguém jamais pensava em não ir naquela noite por preferir fazer outra coisa qualquer. Todas as crianças da Rua Santa Teresinha iam em bando levar flores para Nossa Senhora, uma imagem tão linda lá no altar, com seu manto de veludo azul todo bordado de estrelas prateadas. O Luís nos deixou recentemente, e fico feliz de pensar que Nossa Senhora não haverá de se esquecer daquele menino, que, com tanto carinho, toda noite levava flor para ela, no mês de maio. Sylvia Manzano, escritora (sylviamanzano@uol.com.br) Por Paulinas Editora publicou entre outros: Lendas do Japão e Ferdinanda e eu.

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